8. MUNDO 18.9.13

JOGANDO PARA A PLATEIA

Proposta de entregar armas qumicas da Sria a controle internacional no elimina a ameaa da guerra, mas d a Obama, Assad e Putin tempo para encontrar uma soluo provisria para a crise
Mariana Queiroz Barboza

O presidente americano, Barack Obama, vive um dilema. No discurso transmitido ao vivo, em cadeia nacional de tev, na noite da tera-feira 10, ele foi enftico: Essa nao est cansada de guerra. Pouco tempo depois, disse que o ditador srio Bashar al-Assad deveria ser punido pelo uso de armas qumicas. Mas como punir Assad sem ir ao campo de batalha? Desconfortvel na tarefa de conduzir o pas para mais uma operao militar no Oriente Mdio, Obama usou o horrio nobre para explicar aos americanos, amplamente contrrios  interveno, por que pedira ao Congresso para adiar a votao sobre a ofensiva na Sria. Para muitos crticos, a retrica hesitante resultou em um passo atrs na credibilidade do presidente. Em defesa de Obama, havia uma razo suficientemente forte para adiar os ataques ao regime de Assad: um plano de desarmamento proposto pela Rssia e aceito pela Sria. O acordo de difcil  para no dizer impossvel  execuo trouxe pouco de concreto para um desfecho da guerra, mas deu a Obama, Assad e Vladimir Putin, presidente russo, o que eles mais queriam: tempo.

CONVENCEU? - Americanos assistem, em Washington, ao discurso de Obama na tev. O presidente adiou a ao militar na Sria

DESARMADO - O ditador srio Bashar al-Assad surpreendeu ao aceitar o plano, mas deve provar que pode ser levado a srio pela comunidade internacional

O plano costurado por Putin faria a Sria abrir mo de seu arsenal de armas qumicas, provavelmente o terceiro maior do mundo, atrs justamente dos estoques em posse dos EUA e da Rssia. Em quatro etapas, Damasco deveria aderir  Organizao para a Proibio de Armas Qumicas (o que aconteceu na quinta-feira 12, segundo o embaixador do pas na ONU), revelar a localizao de seu arsenal, autorizar o acesso de inspetores do rgo a esses locais e, por fim, destruir as armas. Se colocado em prtica, o pacto impediria um ataque americano (cada vez mais improvvel com o passar do tempo) e reforaria a aliana da Sria com a Rssia, alm de provocar um efeito positivo  imagem internacional de Assad. Por ora, o mundo estaria livre da ameaa de bombardeios com agentes asfixiantes que matam principalmente crianas, mulheres e idosos. A proposta, contudo,  altamente custosa e envolve riscos de contaminao e roubos num pas que enfrenta uma longa guerra civil (leia quadro). A eliminao completa das armas poderia levar dcadas, como mostra o esforo bilionrio dos EUA em destruir seu prprio arsenal de 30 mil toneladas de gs mostarda, sarin e VX, que comeou em 1997 e no deve acabar at 2023.

PROTAGONISTA - Vladimir Putin, presidente russo, j contabiliza as vantagens do plano para a Sria: ofuscou Obama no papel de conciliador

As vantagens desse plano, no entanto, j foramcontabilizadas para Vladimir Putin. Em carta endereada ao povo americano e publicada pelo jornal The New York Times, o presidente russo evocou at o papa Francisco para advogar contra a interveno militar na Sria. Putin disse que a ofensiva poderia aumentar a violncia e desencadear uma nova onda de terrorismo. Em uma semana, ele tirou de Obama o papel de principal rbitro da poltica global, se apresentou como um estadista pacfico e evitou o enfraquecimento do Conselho de Segurana da Organizao das Naes Unidas, onde a Rssia tem poder de veto. Nos ltimos dois anos e meio, com o apoio da China, os russos bloquearam todas as resolues contrrias a Assad  da mesma forma que os americanos vetaram, em 2011, uma proposta endossada por 130 pases que considerava ilegais os assentamentos de Israel na Cisjordnia. Mesmo que no seja levado adiante, o novo plano para a Sria j teve um impacto geopoltico inesperado. Nos encontros bilaterais que ocorreram na semana passada, os resqucios da Guerra Fria que permeavam a relao entre Moscou e Washington foram suspensos. Os desacordos iam desde a concesso de asilo da Rssia ao ex-agente da CIA Edward Snowden at temas como direitos humanos e controle de armas. Agora, as duas potncias parecem, enfim, se entender. Melhor assim.

